Há uns dias atrás li um texto do José Luís Peixoto, no seu blog que atentamente sigo (http://bravonline.abril.uol.com.br/blog/joseluispeixoto/), e que me fez lembrar bastante um texto que escrevi em tempos. Aprovei para dar um título ao texto e acrescentei uma última frase. Peço desde já desculpa ao JLP pelos dois semi copianços.
Estava em meados de Abril, e já há algum tempo que se falava do evento que iria decorrer em Maio, a bênção das fitas. Eu estava a tentar escapar-me a falar disso em casa, dizia sempre que ainda faltava muito tempo. Nunca gostei das tradições académicas e não estava a suportar a ideia de passar uma manhã inteira ao sol com uma capa preta super quente e com uma pasta de fitas à espera de serem abençoadas. A minha mãe insistia, mas como o meu pai felizmente também não gosta de tradições académicas, acabei por ganhar esta guerra.
A minha avó tinha sido operada mais uma vez ao coração no inicio do mês de Abril e foi nessa mesma semana, em que ela saiu do hospital, que fui com a minha mãe e a minha irmã passar a tarde lá a casa. Que sensação maravilhosa entrar naquela casa e encontrar a minha avó já sem os tubos e sem estar ligada às máquinas do hospital. Beijos, beijos e mais beijos. A minha avó perguntou então pelo traje que tinha de arranjar, que já não teria muito tempo. A minha mãe tira-o de um saco (em que me disse que estava um fato para o meu avô), eu nem quero acreditar no que estou a ver. Comecei logo a tentar argumentar com factos lógicos que aquilo não fazia sentido, já tinha sido conversado, para além do mais a minha avó estava doente, não podia estar a ter trabalho a arranjar o traje. Nesse momento a minha avó olhou para mim e pediu-me com um olhar meigo para que eu fosse à bênção das fitas. Disse-me que era importante para ela ver a única neta que tinha possibilidades para poder formar-se fazê-lo.
E assim foi, no dia 21 de Maio vesti-me a rigor e lá fui eu para a Alameda abençoar as minhas fitas. Tal como eu previra, estava um calor de cortar a respiração. Centenas de pessoas encheram a Alameda nessa manhã. Uns, tal como eu, tentavam desesperadamente encontrar os familiares e amigos (não havia rede nos telemóveis), outros estavam já agarrados a uma garrafa de cerveja a festejar o momento.
Encontrei-os a todos. A minha irmã, a minha mãe e o meu pai num lado da confusão e quando voltava para o meu lugar vejo os meus avós no outro lado. Mais precisamente, a minha avó estava confortavelmente sentada numa cadeira que tinha trazido de casa, num local que era só de passagem para os estudantes, mas ela lá conseguiu dar a volta ao segurança e pôr ali a sua cadeira. O meu avô estava de pé ao seu lado, como sempre a protegê-la. Ignorei aquelas regras académicas e tirei a capa e o casaco. Conversei durante a cerimónia com os meus amigos, aproveitámos para recordar alguns dos bons momentos que aqueles anos nos proporcionaram. Finalmente as fitas foram abençoadas. A cerimónia terminou. Voltámos para casa, não houve mais comemorações, não gosto de celebrar antes do tempo. A verdade é que ainda estava a fazer o estágio, só queria celebrar quando tivesse o diploma na mão.
Uma cerimónia que nada me dizia acabou por ser bastante importante. A minha irmã adorou toda aquela confusão em que eu era o centro das atenções, nos meus pais reflectia-se um orgulho imenso, nos meus avós ternura. Admiro principalmente o esforço que a minha avó fez para ali estar, para me ver e acompanhar em mais uma fase da minha vida. Não trocava por nada o brilho do sol que se espelhava nos seus olhos naquele dia.
Foi a última vez que estivemos juntas. No dia 29 de Maio a minha avó morreu. A minha avó ensinou-me algo que não vou esquecer, ensinou-me que às vezes sim significa amor.