Estou sentada na minha praia simplesmente a deixar o tempo passar... não oiço nada, não vejo nada, não sinto nada.
Sinto-me de repente envolvida num imenso calor trazido pelos últimos raios de sol. Chega a ser um calor insuportável, uma luz tão intensa que me leva a fugir para me proteger. Escondo-me por trás de um véu, mas apenas a luz desaparece e o calor teima em ficar. Tiro o véu, mas volto rapidamente a esconder-me, ferida pela luz inesperada desse sol. Espreito mais uma vez, desta vez com mais cautela e apercebo-me que afinal não me fere nem me incomoda a sua presença. Está simplesmente ali a lembrar-me mais uma vez que sem ele não existe vida. Que sempre que eu olhe para o céu, vou-me lembrar que é por causa dele que eu respiro e vivo. Seja que dia for, esteja eu onde estiver, ele nunca vai desaparecer.
Estico a mão, agarro um raio de sol e guardo-o no meu baú...
O calor continua, mas o céu começa a esconder-se por detrás de umas nuvens cinzentas. Sem que me aperceba, a imensa luz do sol é substituída pelo início de uma noite sombria. Caem relâmpagos ao meu lado. Aparecem e desaparecem tão depressa, quando, onde e como querem, deixando-me num estado total de impotência perante este espectáculo de luz e escuridão. Vi agora um que se dividiu em três! Ah, como gosto de ver isto! E é tudo tão rápido que nem consigo pensar no que estou a sentir, mas sei que não sinto medo, apenas uma mistura de adrenalina e insegurança do que pode acontecer sempre que um cai perto de mim. Desses tento fugir, mas sei que são tão rápidos que por mais que fuja me podem na mesma atingir. Mas eu não me importo e continuo ali.
Outros proporcionam um maravilhoso espectáculo de luz, repleto de emoções espontâneas, que também rapidamente se desvanecem. Mas fica a lembrança, a lembrança de um espectáculo único que não esperava assistir. Decido também guardar um relâmpago, guardando no meu baú lembrança do que ele me faz sentir.
Sente-se uma calma desconhecida e incerta no ar. O vento começa a ficar mais forte e quente como sinal de que algo vai chegar. O mar fica agitado, não consigo fixar as nuvens, movimentam-se cada vez mais depressa deixando-me ainda mais atenta e preocupada. Sei que algo de mal vai acontecer e mesmo assim insisto em querer ver. Sinto a terra a tremer, o chão de areia a mover-se por baixo de mim. Começo então a correr em busca de um porto seguro. Talvez agora seja tarde demais! Ouve-se um som ensurdecedor, olho para trás e quando dou por mim sou engolida por uma onda gigante de uma força incrível. Não sei quem sou nem porque estava ali, apenas penso em sobreviver... Luto contra o mar e consigo vir ao de cima, sinto o ar a entrar-me nos pulmões e o alivio de estar viva, mas algo parece puxar-me constantemente e volto a entrar no interior do mar. Perco os sentidos...
Acordo e vejo que continuo na minha praia, sentido um cansaço extremo de tanto lutar. Levanto-me para ver os destroços provocados pela força do mar. Procuro o meu baú e não o encontro... choro e grito de desespero até que por fim o vejo na areia. Tudo o que estava guardado está agora espalhado aleatoriamente na areia. Tento apanhar, juntar, organizar, mas tudo se tornou demasiado confuso. Grito e desespero novamente, fujo o mais rápido que consigo, até que acabo por me desequilibrar e cair. E é nesse momento que olho para o céu e vejo a lua. Há dias em que está maior e resplandecente, há outros em que parece nem existir. Por vezes esqueço-me da sua beleza e da paz que me traz.
Sinto o seu abraço e descanso...
